Os dados recolhidos evidenciam que a falta de docentes é uma realidade transversal a vários concelhos, obrigando as escolas a recorrer a soluções de caráter provisório, irregular e inclusivamente ilegal, muitas delas com impacto direto na organização pedagógica, na degradação das condições de trabalho e do percurso educativo dos alunos.
Total de professores que iniciaram o preenchimento do questionário
81,9% taxa de validação
Respostas consistentes após controlo de qualidade
Cobertura nacional abrangente de municípios portugueses
Escolas e agrupamentos com falta de professores identificada
Neste contexto, o presente inquérito pretendeu recolher informação diretamente junto de profissionais no terreno, permitindo obter uma visão concreta sobre:
Este relatório sistematiza e analisa os dados recolhidos, procurando contribuir para uma reflexão informada sobre o impacto desta realidade.
Análise dos Dados: A análise incluiu a quantificação absoluta das faltas por nível de ensino; a agregação geográfica por concelho e (quando possível) por agrupamento; a categorização das soluções adotadas; e o cruzamento de variáveis para identificar correlações entre falta de docentes, soluções adotadas e distribuição territorial.
Aplicação e Período de Recolha: O inquérito foi divulgado através dos canais sociais do Movimento Professores em Monodocência (MPM) e da metaPROF.pt.
Validação e Controlo de Qualidade: Dados incompletos ou inconsistentes foram excluídos, resultando na amostra final de 1632 respostas.
40,6% do total
Falta de docentes na educação pré-escolar
59,4% do total
Falta de docentes no ensino básico (1º ciclo)
Situação Crítica
Total acumulado de professores em falta em monodocência
+46%
Diferença entre falta de professores 1º ciclo e educadores
| Concelho | % |
|---|---|
| Lisboa | 9,8% |
| Sintra | 5,0% |
| Loures | 3,4% |
| Amadora | 2,5% |
| Braga | 2,2% |
| Odemira | 2,2% |
| Setúbal | 2,2% |
| Odivelas | 2,0% |
| V. N. Gaia | 2,0% |
| Faro | 1,8% |
| Viseu | 1,7% |
| Almada | 1,4% |
| Barcelos | 1,4% |
| Leiria | 1,3% |
| Vila Real | 1,3% |
| Concelho | % |
|---|---|
| Lisboa | 11,1% |
| Sintra | 10,3% |
| Loures | 4,4% |
| Amadora | 3,4% |
| Setúbal | 2,0% |
| Braga | 1,7% |
| Portimão | 1,6% |
| Faro | 1,5% |
| Odivelas | 1,5% |
| V. N. Gaia | 1,4% |
| Vila Real | 1,2% |
| Vila Verde | 1,2% |
| Almada | 1,2% |
| Olhão | 1,2% |
| V. F. Xira | 1,2% |
Fonte: Inquérito sobre Falta de Professores em Monodocência - Movimento Professores em Monodocência (MPM) e metaPROF.pt
Total de medidas registadas para resolver a falta de professores (100%)
Nota: Cada situação pode ter múltiplas medidas aplicadas, por isso o total é superior ao número de casos.
Fonte: Inquérito sobre Falta de Professores em Monodocência - Movimento Professores em Monodocência (MPM) e metaPROF.pt
| Top 10 - Docente de Apoio (Total: 1.108 - 100%) | |||
|---|---|---|---|
| # | Concelho | % | |
| 1 | Lisboa | 5,4% | |
| 2 | Braga | 3,6% | |
| 3 | Sintra | 3,2% | |
| 4 | Aveiro | 2,2% | |
| 5 | Porto | 2,1% | |
| 6 | Loures | 2,0% | |
| 7 | Almada | 1,8% | |
| 8 | Vila Nova de Gaia | 1,7% | |
| 9 | Amadora | 1,5% | |
| 10 | Leiria | 1,5% | |
| Top 10 - Alunos para Casa (Total: 103 - 100%) | |||
|---|---|---|---|
| # | Concelho | % | |
| 1 | Lisboa | 6,8% | |
| 2 | Sintra | 4,9% | |
| 3 | Setúbal | 3,9% | |
| 4 | Moita | 2,9% | |
| 5 | Seixal | 2,9% | |
| 6 | Braga | 2,9% | |
| 7 | Beja | 2,9% | |
| 8 | Torres Vedras | 2,9% | |
| 9 | Vale de Cambra | 1,9% | |
| 10 | Portimão | 1,9% | |
| Top 10 - Distribuição por Turmas (Total: 473 - 100%) | |||
|---|---|---|---|
| # | Concelho | % | |
| 1 | Lisboa | 9,5% | |
| 2 | Sintra | 5,1% | |
| 3 | Setúbal | 3,8% | |
| 4 | Amadora | 3,2% | |
| 5 | Porto | 2,7% | |
| 6 | Almada | 2,7% | |
| 7 | Vila Franca de Xira | 2,1% | |
| 8 | Aveiro | 1,9% | |
| 9 | Loures | 1,9% | |
| 10 | Braga | 1,9% | |
| Top 10 - Assistente com Supervisão (Total: 147 - 100%) | |||
|---|---|---|---|
| # | Concelho | % | |
| 1 | Lisboa | 7,5% | |
| 2 | Barcelos | 5,4% | |
| 3 | Braga | 5,4% | |
| 4 | Vila Verde | 3,4% | |
| 5 | Santa Maria da Feira | 3,4% | |
| 6 | Penafiel | 2,0% | |
| 7 | Porto | 2,0% | |
| 8 | Aveiro | 2,0% | |
| 9 | Setúbal | 2,0% | |
| 10 | Ponte de Lima | 1,4% | |
Fonte: Inquérito sobre Falta de Professores em Monodocência - Movimento Professores em Monodocência (MPM) e metaPROF.pt
As respostas ao formulário indicam que a falta de educadores de infância e de professores do 1.º ciclo titulares de turma é significativa, afetando múltiplos agrupamentos e concelhos. Em vários casos, a ausência de docentes não se limita a uma situação pontual, assumindo caráter prolongado no tempo.
Esta carência revela dificuldades persistentes na colocação e fixação de professores, com impacto direto na estabilidade das turmas e na gestão escolar.
Perante a falta de docentes, os agrupamentos recorreram a diversas soluções, algumas contrárias ao quadro legal em vigor, entre as quais se destacam:
Estas respostas evidenciam uma forte heterogeneidade de práticas e, em muitos casos, a adoção de medidas que não garantem plenamente a continuidade pedagógica nem condições educativas equivalentes às de uma turma com docente titular.
As soluções identificadas revelam consequências relevantes:
Distribuição Desigual: A falta de professores concentra-se principalmente nos grandes centros urbanos, mas também afeta significativamente algumas regiões do interior.
Medidas Paliativas: As escolas estão a recorrer principalmente a docentes de apoio (58,9%) e à distribuição de alunos por outras turmas (25,1%) para mitigar a falta de professores.
Impacto nos Alunos: Em 5,5% dos casos, os alunos foram enviados para casa, o que representa uma interrupção significativa no processo educativo.
Vulnerabilidade do 1.º Ciclo: A falta de professores do 1.º ciclo é mais expressiva (59,4% do total) do que a de educadores de infância (40,6%).
A generalização destas medidas sugere que a falta de docentes deixou de ser uma exceção, passando a integrar o funcionamento regular de várias escolas, caracterizando um sistema de gestão do colapso.
Os dados recolhidos confirmam que a falta de educadores de infância e de professores do 1.º ciclo, titulares de turma, constitui um problema estrutural, com impacto direto nos alunos, nos profissionais e na organização dos agrupamentos.
Esta realidade evidencia a forte pressão a que as escolas estão sujeitas para se manterem abertas e a assegurar o acolhimento das crianças. Contudo, é uma leitura redutora e conceptualmente incorreta confundir a mera presença dos alunos na escola com a garantia de atividade letiva, de aprendizagens significativas e de continuidade pedagógica.
A diversidade de soluções adotadas não traduz a existência de respostas eficazes e adequadas, mas antes a necessidade de cada agrupamento gerir, de forma isolada, situações de emergência permanentes. Tal contexto, aliado a um enquadramento legal insuficiente para a substituição de ausências de curta duração e à ruptura existente na monodocência para suprir ausências prolongadas, tem conduzido a práticas avulsas e desiguais, frequentemente no limite da legalidade.
Em vez de respostas sistémicas e duradouras, observa-se a institucionalização de uma lógica de gestão do imediato, que compromete a qualidade do serviço público de educação e desvaloriza o bem-estar das crianças, bem como as condições de trabalho dos profissionais.
De salientar a centena de escolas que assumiu enviar as crianças para casa em caso de falta do titular de turma. Esta medida só é tomada quando todos os recursos do agrupamento estão indisponíveis. Num universo de cerca de 1600 respostas consideradas válidas, 5,5% é sintomático da gestão de caos que se vive diariamente nas escolas.
Por fim, é essencial reestruturar os incentivos existentes, como o Apoio Extraordinário à Deslocação (AED), cuja eficácia é atualmente comprometida por atrasos de pagamento, critérios técnicos deficientes e falta de transparência, conforme documentado. A correção destas falhas operacionais é um pré-requisito indispensável para criar mecanismos de atração e fixação de profissionais credíveis nas regiões mais afetadas pela escassez de docentes.
Com base na análise dos dados e nas conclusões apresentadas, propõem-se as seguintes recomendações: