Inquérito MONODOCÊNCIA

Relatório Falta de Professores - Monodocência - 25 de janeiro de 2026

Relatórios, Gráficos, Monodocência, Intervenção Social


1. Resumo

O presente relatório analisa os resultados de um formulário aplicado a docentes e profissionais da educação, com o objetivo de identificar a carência de titulares de turma, educadores de infância e professores do 1.º ciclo, nos agrupamentos escolares, bem como as soluções adotadas para mitigar essa ausência.

Os dados recolhidos evidenciam que a falta de docentes é uma realidade transversal a vários concelhos, obrigando as escolas a recorrer a soluções de caráter provisório, irregular e inclusivamente ilegal, muitas delas com impacto direto na organização pedagógica, na degradação das condições de trabalho e do percurso educativo dos alunos.


1.992
Participantes no Inquérito

Total de professores que iniciaram o preenchimento do questionário

1.632
Respostas Validadas

81,9% taxa de validação

Respostas consistentes após controlo de qualidade

190
Concelhos Participantes

Cobertura nacional abrangente de municípios portugueses

334
Agrupamentos Reportados

Escolas e agrupamentos com falta de professores identificada


2. Introdução

A escassez de docentes nos níveis iniciais de ensino constitui uma realidade persistente no sistema educativo. A dificuldade em assegurar educadores de infância e professores do 1.º ciclo do ensino básico, quer em situações pontuais quer de forma continuada, tem determinado a adoção de diferentes soluções organizacionais por parte dos agrupamentos por forma a manterem as escolas abertas. Estas soluções de resposta às necessidades assistenciais das famílias não asseguram a qualidade pedagógica e não respeitam, em muitas situações, o quadro legal em vigor. Representam também uma sobrecarga para os profissionais que asseguram a substituição de docentes, revelando um sistema débil nessa substituição.

Neste contexto, o presente inquérito pretendeu recolher informação diretamente junto de profissionais no terreno, permitindo obter uma visão concreta sobre:

  • A dimensão e distribuição territorial da falta de educadores de infância e professores do 1.º ciclo;
  • As soluções pelas escolas/agrupamento para suprir essa falta;

Este relatório sistematiza e analisa os dados recolhidos, procurando contribuir para uma reflexão informada sobre o impacto desta realidade.


3. Metodologia

A metodologia adotada, inquérito online de acesso livre e amostragem não probabilística, não fragiliza o estudo, antes o enquadra no seu propósito principal: captar e visibilizar experiências concretas de docentes e agrupamentos, permitindo um diagnóstico qualitativo e territorial da falta de professores em monodocência. Embora não permita generalizações estatísticas para toda a população docente nacional, este desenho metodológico é amplamente reconhecido em estudos de carácter exploratório, descritivo e de intervenção cívica.
O questionário incluiu:

  • o número de educadores de infância titulares de turma em falta;
  • o número de professores do 1.º ciclo titulares de turma em falta;
  • as soluções adotadas pelo agrupamento para resolver a ausência desses docentes;
  • o concelho onde o respondente exerce funções;
  • o nome do agrupamento de escolas.

Análise dos Dados: A análise incluiu a quantificação absoluta das faltas por nível de ensino; a agregação geográfica por concelho e (quando possível) por agrupamento; a categorização das soluções adotadas; e o cruzamento de variáveis para identificar correlações entre falta de docentes, soluções adotadas e distribuição territorial.

Aplicação e Período de Recolha: O inquérito foi divulgado através dos canais sociais do Movimento Professores em Monodocência (MPM) e da metaPROF.pt.

Validação e Controlo de Qualidade: Dados incompletos ou inconsistentes foram excluídos, resultando na amostra final de 1632 respostas.


4. Gráficos e Visualizações

1.371
Educadores de Infância em Falta

40,6% do total

Falta de docentes na educação pré-escolar

2.002
Professores 1º Ciclo em Falta

59,4% do total

Falta de docentes no ensino básico (1º ciclo)

3.373
Total de Docentes em Falta

Situação Crítica

Total acumulado de professores em falta em monodocência

+631
Maior Falta no 1º Ciclo

+46%

Diferença entre falta de professores 1º ciclo e educadores

Distribuição da Falta de Docentes por Concelho

Concentração Urbana: A falta de professores concentra-se principalmente nas áreas metropolitanas de Lisboa e Porto, mas afeta também significativamente outras regiões do país.
Top 5 - Falta de Educadores
Lisboa 135 (9,8%)
Sintra 68 (5,0%)
Loures 47 (3,4%)
Amadora 34 (2,5%)
Braga/Odemira 30 (2,2%)
Total Nacional: 1.371 (100%)
Top 5 - Falta 1º Ciclo
Lisboa 223 (11,1%)
Sintra 207 (10,3%)
Loures 88 (4,4%)
Amadora 69 (3,4%)
Setúbal 41 (2,0%)
Total Nacional: 2.002 (100%)
Análise Comparativa
Diferença Total:
+631 (+46,0%)
Mais faltas no 1º ciclo
Lisboa (diferencial):
+88 (+65,2%)
Mais faltas no 1º ciclo
Sintra (diferencial):
+139 (+204,4%)
Mais faltas no 1º ciclo
Proporção total: 1º ciclo tem 59,4% vs Educadores 40,6%

Top 15 - Falta de Educadores (Total: 1.371 - 100%)
Concelho %
Lisboa 9,8%
Sintra 5,0%
Loures 3,4%
Amadora 2,5%
Braga 2,2%
Odemira 2,2%
Setúbal 2,2%
Odivelas 2,0%
V. N. Gaia 2,0%
Faro 1,8%
Viseu 1,7%
Almada 1,4%
Barcelos 1,4%
Leiria 1,3%
Vila Real 1,3%
Top 15 - Falta 1º Ciclo (Total: 2.002 - 100%)
Concelho %
Lisboa 11,1%
Sintra 10,3%
Loures 4,4%
Amadora 3,4%
Setúbal 2,0%
Braga 1,7%
Portimão 1,6%
Faro 1,5%
Odivelas 1,5%
V. N. Gaia 1,4%
Vila Real 1,2%
Vila Verde 1,2%
Almada 1,2%
Olhão 1,2%
V. F. Xira 1,2%

Fonte: Inquérito sobre Falta de Professores em Monodocência - Movimento Professores em Monodocência (MPM) e metaPROF.pt

Medidas Adotadas para Resolver a Falta de Professores

1.882

Total de medidas registadas para resolver a falta de professores (100%)


Nota: Cada situação pode ter múltiplas medidas aplicadas, por isso o total é superior ao número de casos.

Distribuição Percentual:
  • 58,9% Docente de apoio (1.108 casos)
  • 25,1% Distribuição por outras turmas (473 casos)
  • 5,5% Alunos enviados para casa (103 casos)
  • 7,8% Assistente operacional com supervisão (147 casos)
  • 2,7% Duas assistentes operacionais (51 casos)

Fonte: Inquérito sobre Falta de Professores em Monodocência - Movimento Professores em Monodocência (MPM) e metaPROF.pt

Distribuição Geográfica das Medidas por Concelho

Análise por Concelho: Este gráfico mostra os 10 concelhos com mais ocorrências para cada tipo de medida adotada. Os dados revelam padrões territoriais distintos na gestão da falta de professores.
Top 10 - Docente de Apoio (Total: 1.108 - 100%)
# Concelho %
1 Lisboa 5,4%
2 Braga 3,6%
3 Sintra 3,2%
4 Aveiro 2,2%
5 Porto 2,1%
6 Loures 2,0%
7 Almada 1,8%
8 Vila Nova de Gaia 1,7%
9 Amadora 1,5%
10 Leiria 1,5%
Top 10 - Alunos para Casa (Total: 103 - 100%)
# Concelho %
1 Lisboa 6,8%
2 Sintra 4,9%
3 Setúbal 3,9%
4 Moita 2,9%
5 Seixal 2,9%
6 Braga 2,9%
7 Beja 2,9%
8 Torres Vedras 2,9%
9 Vale de Cambra 1,9%
10 Portimão 1,9%
Top 10 - Distribuição por Turmas (Total: 473 - 100%)
# Concelho %
1 Lisboa 9,5%
2 Sintra 5,1%
3 Setúbal 3,8%
4 Amadora 3,2%
5 Porto 2,7%
6 Almada 2,7%
7 Vila Franca de Xira 2,1%
8 Aveiro 1,9%
9 Loures 1,9%
10 Braga 1,9%
Top 10 - Assistente com Supervisão (Total: 147 - 100%)
# Concelho %
1 Lisboa 7,5%
2 Barcelos 5,4%
3 Braga 5,4%
4 Vila Verde 3,4%
5 Santa Maria da Feira 3,4%
6 Penafiel 2,0%
7 Porto 2,0%
8 Aveiro 2,0%
9 Setúbal 2,0%
10 Ponte de Lima 1,4%
Principais Conclusões
  • Lisboa lidera em todas as categorias, representando entre 5,4% e 11,1% do total de cada medida, refletindo a maior concentração de escolas e a maior pressão no sistema
  • Sintra e Braga aparecem consistentemente entre os top concelhos em múltiplas categorias, com participação entre 1,5% e 10,3%
  • A medida de "Alunos enviados para casa" tem uma distribuição mais dispersa, com valores absolutos muito mais baixos (apenas 103 casos no total - 5,5%)
  • Concelhos do norte (Braga, Barcelos, Vila Verde) destacam-se na utilização de assistentes operacionais com supervisão (representando até 5,4% do total)
  • A distribuição por turmas é uma medida comum em áreas metropolitanas (Lisboa, Sintra, Setúbal, Amadora), representando até 9,5% do total desta medida

Fonte: Inquérito sobre Falta de Professores em Monodocência - Movimento Professores em Monodocência (MPM) e metaPROF.pt


5. Análise dos Resultados, Discussão e Conclusão

Falta de Docentes

As respostas ao formulário indicam que a falta de educadores de infância e de professores do 1.º ciclo titulares de turma é significativa, afetando múltiplos agrupamentos e concelhos. Em vários casos, a ausência de docentes não se limita a uma situação pontual, assumindo caráter prolongado no tempo.

Esta carência revela dificuldades persistentes na colocação e fixação de professores, com impacto direto na estabilidade das turmas e na gestão escolar.

Medidas Adotadas para Mitigar a Falta de Professores

Perante a falta de docentes, os agrupamentos recorreram a diversas soluções, algumas contrárias ao quadro legal em vigor, entre as quais se destacam:

  • atribuição das turmas a docentes de apoio (58,9% dos casos);
  • distribuição dos alunos por outras turmas já existentes (25,1% dos casos);
  • permanência dos alunos com assistentes operacionais, sob supervisão indireta de um docente titular de outra turma (7,8% dos casos);
  • acompanhamento dos alunos por duas assistentes operacionais, implicando a retirada de uma delas da turma a que estava inicialmente afeta (2,7% dos casos);
  • envio dos alunos para casa (5,5% dos casos);
  • adoção de outras soluções não previstas, ajustadas à realidade local.

Estas respostas evidenciam uma forte heterogeneidade de práticas e, em muitos casos, a adoção de medidas que não garantem plenamente a continuidade pedagógica nem condições educativas equivalentes às de uma turma com docente titular.

Impacto Organizacional e Pedagógico

As soluções identificadas revelam consequências relevantes:

  • desgaste profissional dos docentes e assistentes operacionais;
  • atribuição de funções pedagógicas aos assistentes operacionais, não sendo estas da sua competência;
  • descontinuidade no acompanhamento pedagógico dos alunos;
  • desigualdade de respostas entre agrupamentos e territórios;
  • fragilização da escola pública enquanto espaço de estabilidade educativa;
  • degradação das condições de trabalho dos docentes e assistentes operacionais;

Situação Crítica: Existe uma falta significativa de professores em regime de monodocência em Portugal, com especial incidência na área metropolitana de Lisboa.

Distribuição Desigual: A falta de professores concentra-se principalmente nos grandes centros urbanos, mas também afeta significativamente algumas regiões do interior.

Medidas Paliativas: As escolas estão a recorrer principalmente a docentes de apoio (58,9%) e à distribuição de alunos por outras turmas (25,1%) para mitigar a falta de professores.

Impacto nos Alunos: Em 5,5% dos casos, os alunos foram enviados para casa, o que representa uma interrupção significativa no processo educativo.

Vulnerabilidade do 1.º Ciclo: A falta de professores do 1.º ciclo é mais expressiva (59,4% do total) do que a de educadores de infância (40,6%).

A generalização destas medidas sugere que a falta de docentes deixou de ser uma exceção, passando a integrar o funcionamento regular de várias escolas, caracterizando um sistema de gestão do colapso.


6. Considerações Finais

Os dados recolhidos confirmam que a falta de educadores de infância e de professores do 1.º ciclo, titulares de turma, constitui um problema estrutural, com impacto direto nos alunos, nos profissionais e na organização dos agrupamentos.

Esta realidade evidencia a forte pressão a que as escolas estão sujeitas para se manterem abertas e a assegurar o acolhimento das crianças. Contudo, é uma leitura redutora e conceptualmente incorreta confundir a mera presença dos alunos na escola com a garantia de atividade letiva, de aprendizagens significativas e de continuidade pedagógica.

A diversidade de soluções adotadas não traduz a existência de respostas eficazes e adequadas, mas antes a necessidade de cada agrupamento gerir, de forma isolada, situações de emergência permanentes. Tal contexto, aliado a um enquadramento legal insuficiente para a substituição de ausências de curta duração e à ruptura existente na monodocência para suprir ausências prolongadas, tem conduzido a práticas avulsas e desiguais, frequentemente no limite da legalidade.

Em vez de respostas sistémicas e duradouras, observa-se a institucionalização de uma lógica de gestão do imediato, que compromete a qualidade do serviço público de educação e desvaloriza o bem-estar das crianças, bem como as condições de trabalho dos profissionais.

De salientar a centena de escolas que assumiu enviar as crianças para casa em caso de falta do titular de turma. Esta medida só é tomada quando todos os recursos do agrupamento estão indisponíveis. Num universo de cerca de 1600 respostas consideradas válidas, 5,5% é sintomático da gestão de caos que se vive diariamente nas escolas.

Por fim, é essencial reestruturar os incentivos existentes, como o Apoio Extraordinário à Deslocação (AED), cuja eficácia é atualmente comprometida por atrasos de pagamento, critérios técnicos deficientes e falta de transparência, conforme documentado. A correção destas falhas operacionais é um pré-requisito indispensável para criar mecanismos de atração e fixação de profissionais credíveis nas regiões mais afetadas pela escassez de docentes.

7. Recomendações

Com base na análise dos dados e nas conclusões apresentadas, propõem-se as seguintes recomendações:

  • Responsabilização da tutela - O Ministério da Educação deve assumir publicamente a dimensão do problema e a sua responsabilidade direta, e terminar com a retórica que confunde acolhimento assistencial com atividade letiva.

  • Substituição docente garantida e legal - Criação imediata de mecanismos nacionais de substituição para todos os níveis de ensino inicial. Garantia de que nenhuma turma funciona sem docente titular, independentemente da duração da ausência.

  • Fim da ilegalidade nas escolas - Proibição clara e vinculativa da: atribuição de turmas a docentes de apoio; permanência de alunos com assistentes operacionais sem docente; retirada de assistentes operacionais das suas turmas para suprir carências. Reforço urgente da ação inspetiva.

  • Manter os profissionais - Reconhecimento do desgaste físico, emocional e profissional imposto a docentes e assistentes operacionais; Fim da sobrecarga de trabalho e da violação sistemática dos horários; Valorização imediata das carreiras, condição essencial para travar o abandono da profissão e a atratividade da mesma.

  • Ruptura com a lógica de emergência permanente - Revisão profunda do modelo de monodocência, garantindo substituição em ausências prolongadas; Planeamento da formação inicial de docentes com base em necessidades reais e previsíveis; Criação de um sistema nacional de monitorização da falta de professores, com intervenção automática.