Análise da implementação da medida, três meses após o início do ano letivo 25/26, com as
candidaturas formalizadas
(30 de novembro 2025)
A implementação do Apoio Extraordinário à Deslocação (AED) revela falhas estruturais graves: atrasos generalizados no pagamento, incompreensíveis invalidações de candidaturas (muitas vezes por questões técnicas relacionadas com as coordenadas GPS e o cálculo de distâncias pelos órgãos de gestão das escolas), falta de transparência e deficitária comunicação objetiva das entidades responsáveis. Estas ocorrências comprometem seriamente a exequibilidade, o incentivo à deslocação e a temporária fixação de professores em zonas periféricas e (ou)carenciadas, objetivos centrais do AED.
Três meses após o início do ano letivo 2025/2026 , a metaPROF apresenta o 2º Relatório de Análise da Implementação do Apoio Extraordinário à Deslocação (AED), a medida governativa que visa compensar os docentes que residem a uma distância superior a 70 km da sua escola de colocação.
Tal como no ano letivo anterior (2024/2025), a implementação voltou a ser marcada por atrasos, lacunas no esclarecimento e falhas na validação das candidaturas. À tardia abertura do período de apresentação de candidaturas (1 de outubro de 2025) somaram-se outros problemas, nomeadamente a introdução de novos requisitos burocráticos, sem o devido esclarecimento (incluindo o envio de coordenadas GPS e declarações de não-propriedade), gerando confusão e novos constrangimentos administrativos, dando azo a que muitos docentes se encontrem sem qualquer apoio validado, consequentemente, sem dinheiro para fazerem face às despesas inerentes à deslocação para zonas distantes da sua residência.
Para avaliar o impacto destas dificuldades, a metaPROF lançou um 2º questionário nacional, no qual participaram 1.257 professores de 124 municípios. Os resultados indicam que 25% de candidaturas foram recusadas, 52% não receberam qualquer valor e que apenas 32% receberam o apoio no vencimento de novembro.
Os dados confirmam a ineficiente gestão deste dossier, reforçando a generalizada percepção de injustiça, desorganização e iniquidade da aplicação da medida. Um número significativo de professores considera o valor do apoio insuficiente para ressarcir o tempo e suportar aos custos reais da deslocação casa-escola, pelo que, pondera não manter a colocação no próximo ano letivo.
Professores / Educadores
Grupos de Recrutamento
Municípios
Professores reclamaram pelo facto das suas candidaturas terem sido recusadas.
A análise aos comentários qualitativos, recolhidos no questionário, evidencia um conjunto consistente de constrangimentos no processo de candidatura, validação e pagamento do Apoio Extraordinário à Deslocação (AED), revelando falhas estruturais ao nível da comunicação institucional, da validação técnica e do processamento administrativo.
Destaca-se a existência de atrasos generalizados no pagamento do apoio, mesmo em situações em que as candidaturas já se encontravam validadas há várias semanas. Muitos docentes referem que, apesar de terem recebido confirmação de validação em datas como 21, 24 e 31 de outubro ou 3, 6 e 7 de novembro, o valor continua por ser processado no vencimento, sendo frequentemente apontada a ausência de autorização por parte da DGAE ou do IGEFE como principais motivos do bloqueio.
Em vários casos, as candidaturas foram invalidadas sucessivamente, algumas até três vezes, sobretudo devido a questões relacionadas com as coordenadas GPS da residência fiscal. Os docentes reportaram coordenadas rejeitadas pelo sistema, divergências entre o nome da rua registado nas Finanças e o reconhecido pela plataforma, ausência de registo da morada em serviços de cartografia online - por se tratar, em muitos casos, de urbanizações recentes - ou simples incorreções na inserção inicial dos dados. Estas situações obrigaram a sucessivas submissões, atrasando ainda mais o processo. O problema revela-se particularmente grave para candidatos com residência fiscal no interior do país, onde os principais sistemas de cartografia pública apresentam lacunas, devido à menor densidade populacional.
A recolha de testemunhos evidencia também incoerências significativas no cálculo das distâncias. De forma recorrente, são indicados casos em que o sistema apresenta valores inferiores a 70 km (como 66, 68 ou 69,2 km), quando, na prática, o percurso real ultrapassa esse limite. Em algumas situações, a diferença é de apenas algumas centenas de metros ou poucos quilómetros (200 metros ou 2,9 km), mas suficiente para determinar a exclusão da candidatura. Acresce ainda que, por vezes, o sistema opta por trajetos mais curtos, mas impraticáveis, perigosos ou significativamente mais demorados, ignorando percursos alternativos mais utilizados e adequados.
Outro problema mencionado prende-se com a consideração da escola mais próxima dentro de um mesmo agrupamento, em detrimento da escola onde o docente efetivamente leciona, o que impacta negativamente o cálculo da distância elegível.
Outra anomalia processual identificada pelos docentes consiste na decisão extemporânea das direções escolares de reterem parcelas dos pagamentos retroativos, justificado pelas ausências ao serviço dos docentes. Esta decisão não possui fundamentação legal expressa, uma vez que não encontra respaldo nem no decreto-lei, nem na nota informativa que rege o Apoio em questão (AED). Ao adotá-la, as escolas criaram uma situação generalizada de inequidade entre o corpo docente e, consequentemente, provocaram o atraso na liquidação dos valores devidos, com reflexos diretos e graves no orçamento familiar dos professores afetados.
Além das questões técnicas, é evidente a falta de informação clara e harmonizada entre as entidades envolvidas. Enquanto algumas escolas indicam que as candidaturas estão validadas, os serviços centrais não confirmam nem autorizam o pagamento. Vários docentes referem não saber a quem reclamar, quais os prazos aplicáveis ou em que fase do processo a sua candidatura se encontra. Em alguns casos, foi-lhes comunicado que o pagamento transitou para dezembro, alegadamente por razões de gestão fiscal relacionadas com o subsídio de Natal.
No conjunto dos testemunhos emerge um sentimento generalizado de insatisfação face à desorganização, à injustiça, ao desrespeito e à falta de transparência por parte das entidades responsáveis. Esta situação está a afetar gravemente a confiança dos professores nas instituições ministeriais e compromete o objetivo central da medida: incentivar a fixação de docentes em zonas deficitárias através de um apoio justo, célere e eficaz.
O presente relatório, através dos gráficos e dos relatos dos docentes, revela que o AED, na sua forma atual (7 novembro de 2025), está longe de ser uma solução eficaz para os problemas que se propõe resolver. Há falhas graves de concepção e execução que diminuem drasticamente o impacto prático da medida. Para muitos professores a “promessa” de apoio à deslocação transformou-se num processo burocrático frustrante, que não alivia o custo real nem garante segurança ou estabilidade. Para que o AED cumpra verdadeiramente seu papel - atrair e manter professores onde há falta de docentes, seria necessário rever e simplificar os critérios, garantir pagamentos atempados, adaptar o cálculo de distâncias à realidade dos trajetos e garantir que o processo seja transparente e uniforme para todos.
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