28 de julho de 2026 A MetaPROF torna pública a base quantitativa que reuniu sobre as horas extras de trabalho dos professores classificadores durante a época de exames de 2026. Os apuramentos assentam em quatro conjuntos de registos independentes entre si: um inquérito a classificadores, os registos de itens acrescentados depois da atribuição inicial, as marcas temporais geradas automaticamente pela plataforma e o trabalho voluntário de análise de provas prestado a alunos e famílias.
Não se trata de uma estimativa nacional e a MetaPROF não a apresenta como tal. Trata-se do que está documentado nos registos que recebeu.
Compromissos do Ministério: o que foi prometido e o que mudou
A 11 de julho de 2026, em comunicado enviado às redações, o Ministério da Educação, Ciência e Inovação declarou que, em reconhecimento do esforço e do trabalho suplementar necessário para cumprir os prazos do calendário da avaliação externa, os professores classificadores seriam compensados com o pagamento de horas extraordinárias pelo trabalho realizado durante o fim de semana.
27 de julho de 2026, despacho do mesmo Ministério fixou a compensação por unidade de trabalho produzida — um euro por resposta classificada — e não estabeleceu qualquer valor horário.
Dezasseis dias separam os dois atos. Ambos são institucionais, ambos são escritos, ambos são públicos. O primeiro prometia pagar horas. O segundo não conta horas.
O que a plataforma registou Em 237 registos, classificadores documentaram o aparecimento de itens adicionais depois de lhes ter sido atribuído o lote inicial. No total, pelo menos 26 923 itens acrescentados. Em nenhum dos 237 registos houve redução.
Em pelo menos 121 desses registos, os itens adicionais surgiram depois de o lote já estar dado por concluído — somando pelo menos 14 649 itens. Português e Matemática A concentram a maior parte do volume.
Não são perceções. São contagens.
Quando esse trabalho foi feito
As marcas temporais são geradas automaticamente pelo sistema, sem intervenção de quem regista. Sobre 1 214 registos submetidos à MetaPROF:
Pelo menos 81 foram efetuados entre a meia-noite e as sete da manhã. Pelo menos 215 foram efetuados ao sábado ou ao domingo.
O próprio Ministério reconhece este ponto: no comunicado que acompanha o despacho de 27 de julho, invoca um contexto de particular exigência que implicou, para muitos docentes, trabalhar aos fins de semana e em horário noturno.
O que o novo modelo de pagamento não vê
A compensação deixou de ser calculada sobre o tempo e passou a ser calculada sobre a produção. A consequência é direta: o tempo que não se traduziu em respostas classificadas fica fora do âmbito da compensação.
É esse, precisamente, o tempo que as falhas do sistema consumiram. A espera pelo acesso à plataforma — a queixa dominante entre os testemunhos recebidos, com 190 registos. O recurso ao mecanismo de reporte: entre os respondentes ao inquérito, 76 utilizaram-no e 35 não obtiveram qualquer resposta. A releitura de provas cujas folhas de continuação só chegaram depois da classificação inicial. Os itens que desapareceram e reapareceram classificados por outra pessoa: 13 respondentes declaram ter tido itens reclassificados por terceiros e, destes, 12 desconhecem com que critério.
Um classificador que esperou quatro horas pelo acesso à plataforma e outro que classificou continuamente durante essas mesmas quatro horas recebem, no modelo aprovado, valores diferentes pelo mesmo tempo de disponibilidade. O primeiro é justamente aquele que a falha prejudicou.
O que a MetaPROF não afirma
A MetaPROF não apresenta percentagens. A participação nos seus instrumentos é voluntária e qualquer proporção seria contestável — daí a formulação "pelo menos N", em todos os números deste comunicado.
A MetaPROF não estima quantos itens um professor classifica por hora. Não dispõe de dados que o permitam apurar e não adota parâmetros de terceiros.
A MetaPROF não discute o valor unitário fixado pelo despacho. O que assinala é outra coisa: que o tempo consumido pelas falhas do sistema deixou de ter, no regime aprovado, qualquer unidade de medida.
As perguntas que a metaPROF dirigiu ao Ministério da Educação:
- Quantas respostas foram classificadas por professores na 1.ª fase e quantas foram classificadas automaticamente pelo sistema?
- O pagamento de um euro aplica-se a cada resposta classificada por um professor, ou a cada item digitalizado?
- Quando um item já classificado foi novamente atribuído e classificado por outro professor, quantos pagamentos são devidos e a quem?
- De que forma é compensado o tempo de espera por acesso à plataforma, quando esse tempo não gerou respostas classificadas?
- O compromisso assumido a 11 de julho, de pagamento de horas extraordinárias, foi revogado? Por que ato e com que fundamento?
- Que registos existem, no sistema, do tempo de trabalho efetivo de cada classificador?
- Qual o custo total previsto da medida aprovada a 27 de julho?
- Em que prazo serão efetuados os pagamentos?
O Ministério prometeu pagar horas extraordinárias a 11 de julho e, a 27 de julho, aprovou um modelo que não conta horas. Entre uma data e outra, os professores classificadores continuaram a trabalhar de madrugada e ao fim de semana. O que mudou não foi o trabalho: foi a unidade de medida.
Contacto para esclarecimentos: Pedro Brito — MetaPROF.pt
MetaPROF — metaprof.pt
Dossiê Exames 2026: Horas Extra